América do Sul

O que fazer em Valparaíso, a cidade que inspirou Pablo Neruda

O Chile é um dos destinos preferidos dos brasileiros e, embora Santiago e San Pedro de Atacama sejam nossas cidades queridinhas, outros locais também merecem destaque. Este é o caso de Valparaíso, a “Joia do Pacífico”, que fica a apenas 120 km de distância da capital (cerca de duas horas de carro).

Acolhedora e vibrante, Valpo (como é carinhosamente chamada pelos chilenos) é famosa por suas casas coloridas, seus cerros (são mais de 40), suas magníficas vistas para o mar e os incríveis painéis de grafitti que decoram a maioria de seus muros.

Com mais de 300 mil habitantes, a cidade histórica fundada em 1544 pelo espanhol Pedro de Valdívia, foi declarada Patrimônio da Humanidade da Unesco em 2003, prêmio conquistado por sua arquitetura, design, história e contribuições culturais. Não por acaso é que Pablo Neruda, o mais aclamado poeta chileno, a escolheu para construir uma de suas icônicas casas – hoje, uma das principais atrações turísticas da cidade.

A cidade portuária cor-de-arco-íris esconde muitos tesouros em seu labirinto de colinas: arte de rua vibrante, vislumbres dignos de suspiros do surpreendentemente azul do Pacífico, incontáveis ​​galerias de arte… Por conta disso tudo se trata de uma daquelas cidades em que você pode passar horas e até dias, apenas passeando sem destino, observando o estilo de vida descontraído dos moradores, pois é certo que se pode encontrar algo surpreendente em cada esquina e em cada beco.

São vários os encantos de Valparaíso, que, definitivamente, justificam conhecer este destino especial. Eis aqui alguns deles:

Contemple a arte de rua

Valparaíso é uma das capitais dos grafittis da América do Sul, tradição que começou como um protesto contra o regime de Augusto Pinochet. Agora é justamente o governo quem patrocina e incentiva esta prática. Por lá nenhum lugar exibe arte de rua melhor do que o Museo a Cielo Abierto no bairro do bairro de San Miguel.

Os primeiros murais do local foram criados entre 1969 e 1973 por estudantes do Instituto de Arte da Universidade Católica. Um dos objetivos era parar a deterioração dos edifícios do local, devido a décadas de poluição visual gerada pelas pichações e cartazes que ocupavam os muros. Atualmente, o projeto tornou-se a maior expressão coletiva de arte de rua no Chile.

Todos os trabalhos são desenvolvidos por talentos nacionais e internacionais, consagrados e emergentes, que têm suas criações previamente validadas pelos moradores, fato que adiciona um bônus único de participação e também gera um sentimento de pertencimento ao bairro e seu entorno. Para conhecer o Museu a Cielo Abierto é preciso tomar um dos famosos elevadores da cidade, o Ascensor Espírito Santo.

A arte de rua e o grafite fazem parte da aura de toda cidade e não apenas de São Miguel. A rua Templeman, em Cerro Alegre, é outro ótimo endereço para contemplar as intensas cores que fazem de uma caminhada despretensiosa um passeio imperdível em Valparaíso.

Suba e desça com os funiculares

Valparaíso é uma cidade formada por morros – totalizando um número de 42 colinas (entretanto alguns habitantes insistam que são 45) e isso significa que é preciso um tênis bem confortável para explorá-la. No entanto, para facilitar a locomoção, a cidade possui uma série de elevadores ou funiculares. Entre 1883 e 1916, cerca de 30 funiculares foram construídos para conectar os negócios da Cidade Baixa com os bairros residenciais nas colinas acima. Muitos deles ainda sobrevivem e estão oficialmente listados como Monumentos Históricos Nacionais, embora nem todos estejam atualmente em serviço.

Um dos mais famosos é o Funicular Conception que sobe 68 metros em um ângulo de 45º e remonta a 1883! É o mais antigo da cidade e foi construído para ligar a cidade baixa com as comunidades britânicas e alemãs que viviam no Cerro Concepción (Colina da Conceição).

Já o funicular Artillería é um dos mais fotografados da cidade. Foi construído em 1914 para ligar a Cidade Baixa com o antigo Colégio Naval (agora Museu Naval e Marítimo) no Cerro Artillería. Hoje suas gôndolas continuam a transportar mais de 30 passageiros de cada vez ao topo da Artilharia, de onde são recompensados ​​com vistas fantásticas da cidade e da baía.

Outro funicular que vale a pena conhecer é o Reina Victoria, que oferece a icônica paisagem cartão-postal do alto de Valparaíso.

Visite La Sebastiana, a casa de Pablo Neruda

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura do Chile, Pablo Neruda, teve uma parte importante de sua vida em Valparaíso. Cansado do barulho de Santiago, o escritor encontrou uma estrutura de uma casa localizada no Monte Flórida com uma visão infinita do Oceano Pacífico, onde ele poderia “viver e escrever em paz”. Lá ele concluiu a obra e a transformou em um lar modernista o qual chamou de La Sebastiana em homenagem ao seu construtor, o espanhol Sebastián Collado. Em 18 de setembro de 1961, Neruda inaugurou a casa e convidou seus amigos para celebrar.

Desde então, ele morou na casa por períodos e no local escreveu importantes obras que o consagraram e o fizeram ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Quando Neruda morreu, em setembro de 1973, a casa ficou abandonada por 18 anos, até que começou a ser restaurada em 1990 para finalmente abrir ao público em 1992. Os cuidados, assim como seu trabalho, estão a cargo da Fundação Pablo Neruda. A cor exata de cada parede e a posição dos quadros e objetos foram recriadas na tentativa de reviver a época em que Neruda lá vivia.

Hoje, um retorno ao passado pode ser feita com uma visita a La Sebastiana. Em cada um de seus cinco andares, os visitantes podem descobrir o estilo de vida e os momentos mais gloriosos e excêntricos de seu dono. Além disso, o trabalho do poeta pode ser apreciado em várias línguas na biblioteca, além de uma exposição de fotografias biográficas.

Já na entrada é possível perceber que não se trata de uma casa comum. Em forma de semicírculo, a casa é cheia de janelas e claraboias. Ao entrar, a sensação é a de observar uma panorâmica de 360 ​​graus, em que não só a baía pode ser vista, mas também as colinas da bucólica cidade.

Uma escadaria muito estreita, em forma de caracol e na qual duas pessoas não podem ficar lado a lado, comunica os diferentes níveis da casa. Cada andar foi pensado e decorado com uma intenção especial. No primeiro andar, por exemplo, um cavalo de carrossel de madeira trazido de Paris pode ser observado. Uma coleção de garrafas coloridas de várias formas completam a decoração. No segundo andar, há um bar, atrás do qual apenas Neruda poderia ficar de pé e preparar bebidas para seus amigos, especialmente a bebida chamada “Coquetelón”, uma mistura de sabores com álcool presente em todas as suas celebrações.

No quarto andar fica o que costumava ser o quarto de Neruda. Ao lado da cama de latão, ele instalou lâmpadas e uma cômoda de um navio. Subindo mais e mais em direção ao céu, finalmente chegamos ao sótão que era o escritório do poeta e de cuja janela ele dizia às vezes ver uma linda mulher tomando banho de sol nua no telhado de uma das casas próximas.

Do lado de fora, ao lado da casa, fica o Centro Cultural La Sebastiana, onde várias atividades, como exposições, conferências, cursos, concertos de poesia, oficinas e exposições são apresentadas todos os anos. Uma loja de souvenirs também funciona no mesmo local.

Vá ao Cemitério Número 3 de Playa Ancha

Em um vasto campo com vista para o oceano, no coração da Playa Ancha, fica o Cemitério Número 3. Fundada em 1887, é considerada pela autoridade municipal como uma autêntica atração turística da cidade em virtude de sua riqueza cultural estética e histórica. É um dos lugares mais visitados em Valparaiso, não só por aqueles que possuem família ou amigos que ali descansam, mas também por quem deseja ver o túmulo de Emilio Dubois, um dos mitos do cemitério.

A característica mais marcante da necrópole são seus campos de cunas e corrales (berços e currais). Estes são os memoriais improvisados ​​daqueles que não podiam pagar por um plano mais chique. Feitos principalmente de madeira ou metal (ou, em alguns casos, literalmente, um berço descartado do bebê), eles se assemelham aos mausoléus construídos para aqueles que podem pagar em particular, ou aqueles que são enterrados coletivamente em tumbas de propriedade de sindicatos e sociedades sociais. São decorados com fotos, lembranças e outras lembranças do falecido.

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O túmulo de Emilio Dubois é o mais visitado do cemitério

O túmulo mais famoso do cemitério é provavelmente a animita de Emilio Dubois. Uma animita, em uma mistura de crenças indígenas e coloniais é um santuário para alguém que morreu tragicamente ou violentamente e acredita-se que permaneça em contato com o mundo dos vivos. No caso de Dubois, ele foi condenado a morrer por pelotão de fuzilamento por ser um assassino em série.

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O túmulo de Martín Busca, o homem que teria enganado o diabo

Emilio Dubois é um tipo de ‘Robin Hood’ chileno, já que suas vítimas eram usurpadoras da alta sociedade e seus assassinatos eram considerados um ato de justiça da classe trabalhadora contra a burguesia. Ele tornou-se uma espécie de santo dos moradores locais, que vão a sua animita, localizada nas profundezas do cemitério, para orar e pedir favores. Reza a lenda que os pedidos são atendidos, pois o santuário está coberto de placas inscritas agradecendo Dubois por seus milagres. É normal encontrar fieis no cemitério fazendo orações ou deixando pedidos ao ‘santo assassino’.

As pessoas também visitam o Cemitério Número 3 para fazer feitiços e até sacrifícios de animais. É o caso do túmulo de Martín Busca. O imaginário popular a respeito deste personagem conta que ele fez um pacto com o diabo e se tornou milionário. Em troca, ele teria que dar sua alma quando morresse e seu corpo tocasse a terra. No entanto isso nunca aconteceu, pois antes de morrer, ele preparou uma pegadinha. Seu túmulo é suspenso por quatro pernas de leões de seis dedos e por conta disso, ele é conhecido como o homem que enganou o diabo.

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Ao cemitério também se atribuem histórias paranormais como a de uma torre onde se acredita que exista um portal mágico que é aberto durante as noites, a de uma mulher de branco que caminha por entre os túmulos, entre outras. Fato ou engano, são estas histórias que dão vida ao Cemitério 3 de Playa Ancha e que o transformam em uma atração turística para os curiosos que vão conhecer o local.

Conheça a Igreja de São Francisco

Bem no alto do Cerro Baron está a Igreja de São Francisco, um dos pontos turísticos mais visíveis de Valparaíso. Construída pela comunidade franciscana local e concluída em 1846, até o início do século 20 a igreja católica desempenhou uma função secundária como farol, guiando navios em direção ao porto. Era, portanto, a primeira coisa que os navios viam, por isso os marinheiros se referiam carinhosamente à igreja como “Pancho”, o diminutivo de “Francisco”. Pancho, por sua vez, tornou-se um dos apelidos da cidade e continua em uso hoje.

Infelizmente, a partir de 1983 (o mesmo ano em que foi declarado Monumento Nacional do Chile), a igreja começou a atrair um visitante muito indesejado: o fogo.

O primeiro incêndio ocorreu em fevereiro de 1983 e demorou alguns anos para completar a reconstrução. Então, em setembro de 2010, e enquanto a igreja ainda estava sendo reparada após um terremoto no início daquele ano, outro incêndio ameaçou reduzir a Iglesia de San Francisco a cinzas. O incêndio começou no sótão da igreja, possivelmente devido a algumas faíscas de solda, e danificou a maior parte do telhado. O esforço de reconstrução custou cerca de US $ 4 milhões.

Apenas três anos depois, um terceiro incêndio tomou conta da igreja. Começou ao lado do Instituto de Matemática da Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso e atingiu a igreja. O dano foi extenso, quase ao ponto de um possível colapso total da estrutura. Apesar de tudo isso, a admirável e resiliente Iglesia de San Francisco ainda está de pé e sua torre é um marco histórico na antiga cidade portuária.

Passeie pelos cerros

Valparaíso tem 45 colinas, mas como provavelmente você não terá tempo para passear em todas elas, reserve um tempo para ao menos três: Cerro Alegre, Cerro Concepcion e Cerro Belavista.

Cerro Alegre – Esse bairro pitoresco serviu de pano de fundo para uma novela chilena homônima há alguns anos. É uma das melhores áreas de caminhada nas colinas, e, de lá, é possível chegar facilmente ao Cerro Concepción e ao seu funicular homônimo. Já para chegar ao Cerro Alegre, basta pegar o funicular El Peral na Plaza de Justiça que fica logo atrás da Plaza Sotomayor e da Primera Zona Naval. Datado de 1902, o Ascensor El Peral sobe 52 metros a um ângulo de 48 graus.

A partir da saída superior do El Peral, o Paseo Yugoeslavo leva diretamente ao Palacio Baburizza, uma antiga mansão que depois de passar por uma longa reabilitação se tornou o Museu de Belas Artes da cidade. Quase diretamente ao sul, em direção a Cerro Concepción, os degraus da passagem conhecida como ‘Pasaje Bavestrello’ passam entre alas separadas de um prédio de apartamentos, uma integração quase perfeita do espaço público e privado. No local, em certas ocasiões, os moradores projetam filmes nas paredes dos apartamentos. Apenas uma rua, a Urriola, marca a fronteira entre o Cerro Alegre e o Cerro Concepción.

Cerro Bellavista – Marcado pelo Funicular Espírito Santo e também por ruas e escadarias, o Cerro Bellavista é o local do Museu ao Céu Aberto onde se encontram obras de artistas chilenos como Roberto Matta, Nemesio Antúnez e Roser Bru.

Datado de 1911, o funicular Espírito Santo é oficialmente conhecido como Ascensor del Cerro Bellavista; ele sobe 66 metros em um ângulo de quase 45 graus até o seu término superior no Paseo Rudolph.

O Cerro Bellavista é também onde fica a casa do poeta Pablo Neruda, La Sebastiana, uma de suas três casas estranhas (as outras estão em Santiago e em Isla Negra, ao sul de Valparaíso).

Cerro Concepción – Datado de 1883, o primeiro funicular da cidade, o Concepción é também um dos mais populares, subindo 69 metros em um ângulo de 45 graus. Entre os pontos turísticos do bairro estão o Museu El Mirador de Lukas, a segunda igreja protestante do Chile, datada de 1858, a Igreja Anglicana San Pablo e a Igreja Luterana de estilo gótico de 1897.

Faça um passeio a pé gratuito

Se você quiser ver a cidade, mas você não sabe por onde começar, participar de um dos passeios a pé gratuitos é uma ótima pedida! Existem várias empresas que realizam turnês gratuitas pela cidade, mas duas delas são as mais recomendadas: Free Tour Valparaíso e Tours4Tips. Esta é uma ótima maneira de saber dicas interessantes, familiarizar-se com os bairros e ver algumas das melhores artes de rua da cidade. Embora o passeio seja gratuito, recomenda-se dar entre 5000 e 10000 pesos chilenos no final já que a remuneração dos guias são as gorjetas.

A jornalista Tuka Pereira viajou ao Chile a convite do Serviço Nacional de Turismo do Chile.

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